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IA em RH
Por Equipe Fluid HR6 min de leitura

O que 55 líderes de RH do ES disseram sobre IA no recrutamento

Às 8h de uma quarta-feira, 28 de outubro, 70 pessoas de 58 empresas do Espírito Santo sentaram para tomar café e falar de inteligência artificial. Era o Human.AI, café da manhã executivo que a Fluid HR organizou em Vitória. Não era plateia de passagem: 37% estavam em cargos de liderança executiva, 24% em gestão e 30% em funções técnicas. Quase um terço vinha de RH ou Gestão de Pessoas. Um em cada cinco era executivo ou sócio-fundador.

Eu mediei o painel com Fernanda Peroba, Gerente Executiva de Pessoas do Grupo Águia Branca, Beto Yunes, CTO da Globalsys, e Marcelah Andrade, COO da Enjoy Educação. Depois, Marcela Zaidem, founder da CNP People Solutions, subiu ao palco com a pergunta que deu nome à palestra: você contrataria do mesmo jeito?

Mas o dado mais interessante da manhã não saiu do palco. Saiu do formulário de inscrição. Fizemos duas perguntas a cada participante: qual é a primeira decisão do processo de contratação que você nunca entregaria à IA? E qual é a primeira que você entregaria amanhã de manhã? Cinquenta e cinco responderam. O que veio é o retrato mais honesto que já vi de como líderes daqui pensam o assunto, porque ninguém estava tentando parecer moderno na frente de ninguém.

O que 55 líderes responderam sobre IA no recrutamento?

Ninguém disse que não quer IA no recrutamento. O consenso ficou em uma frase: IA no volume, pessoa na decisão. Quase 8 em cada 10 entregariam a triagem de currículos amanhã mesmo. E quase 8 em cada 10 não abrem mão da entrevista ou da decisão final de contratação. As duas tabelas abaixo mostram o detalhe.

Pergunta 1: qual é a primeira decisão que você nunca entregaria à IA?

Resposta % das respostas
Entrevista e contato humano 44,4%
Decisão final de contratação (inclusive decidir abrir ou não a vaga) 35,2%
Avaliação humana: cultura, intuição e comportamento 7,4%
Respostas não classificáveis 13,0%

Pergunta 2: qual é a primeira que você entregaria amanhã de manhã?

Resposta % das respostas
Triagem e avaliação de currículos 77,8%
Tarefas operacionais e administrativas (agendamento, documentação, admissão, testes) 16,7%
Atração e hunting de candidatos 5,6%

Na pergunta 1, os percentuais estão sobre todas as respostas; na pergunta 2, sobre as respostas classificáveis, como foi apresentado no evento.

As respostas abertas dizem mais que as porcentagens. Do lado do que fica com pessoas, apareceu "olho no olho", assim, sem rodeio. Apareceu "a decisão de contratação: a IA pode avaliar o potencial, mas não decidir". E alguém foi um passo antes de todo mundo: a decisão que não entregaria é a de abrir a vaga, entender se a empresa precisa contratar, para qual objetivo e com qual perfil.

Do lado do que vai para a IA, a mesma condição se repetiu em respostas diferentes. "A triagem inicial dos currículos, com base em critérios objetivos definidos por nós." "Análise dos currículos versus a necessidade da vaga, baseado em critérios claros." Ninguém escreveu só "triagem". Escreveram triagem com uma cláusula.

O que esses números significam na prática?

Três leituras. A primeira: o gargalo que todo mundo quer tirar da mesa é o mesmo. A segunda: a linha que separa o que vai para a IA do que fica com gente não é tecnológica, é de responsabilidade. A terceira, e a mais importante: triagem por IA só com critérios claros definidos pelo RH. Sem isso, a resposta da sala seria outra.

1. O gargalo é um só. Não é coincidência 77,8% apontarem a triagem. Volume de currículo é a etapa do processo que mais consome tempo e menos consome julgamento. É repetitiva, mensurável e comparável. É exatamente o tipo de trabalho em que uma máquina bem instruída é mais consistente que uma pessoa cansada na sexta-feira à tarde. A ressalva: é também a etapa em que um erro passa despercebido. Um bom candidato descartado por critério mal definido não reclama. Só some.

2. A fronteira é de responsabilidade, não de capacidade. Ninguém na sala argumentou que a IA não consegue conduzir uma entrevista. O ponto é outro: quem assina a decisão. "A IA pode avaliar o potencial, mas não decidir" resume bem. Entrevista e contato humano ficaram com 44,4% justamente porque é ali que a empresa olha para a pessoa e a pessoa olha para a empresa. O contraponto incômodo: olho no olho também é onde mora o viés. A entrevista é, em muitas empresas, a etapa com menos critério documentado do processo inteiro. Manter a entrevista com pessoas é a decisão certa. Manter sem método é só manter o problema.

3. Critérios claros são pré-condição, não detalhe. Essa foi a condição que mais apareceu nas respostas, e é a que mais vejo ser ignorada na prática. Um RH que não consegue escrever o que procura numa vaga não deveria delegar a triagem a ninguém, humano ou máquina. A diferença é que a máquina torna a ausência de critério visível mais rápido. Quem define o que importa continua sendo o RH. A automação herda esse critério, não o inventa.

O que o mercado mostra fora da sala?

A sala não é exceção. Os dados que a Marcela Zaidem trouxe na palestra mostram o mesmo movimento em escala: adoção de IA acelerando nas empresas, recrutadores já economizando tempo com ela, competências mudando e candidatos usando IA antes mesmo de o recrutador decidir se vai usar.

Dado O que diz Fonte
16,9% para 41,9% Empresas industriais brasileiras com 100 ou mais funcionários usando IA, entre 2022 e 2024 IBGE, PINTEC Semestral 2025
37% e 20% Equipes de recrutamento experimentando ou integrando IA generativa, com economia média de 20% do tempo semanal LinkedIn, Future of Recruiting 2025
39% Competências centrais dos trabalhadores que devem mudar até 2030 WEF, Future of Jobs Report 2025
81% Pessoas que já usam ou planejam usar IA na busca por emprego LinkedIn, janeiro de 2026

O último número é o que mais pesa para quem recruta. Se 81% dos candidatos já usam IA para se candidatar, o recrutador que ainda não usa está lendo, à mão, currículos escritos por máquina. A assimetria já existe. A pergunta não é mais se a IA entra no processo, e sim de que lado da mesa ela está.

Você contrataria do mesmo jeito?

A pergunta da Marcela ficou no ar porque a resposta honesta, para a maioria da sala, é não. O que ela deixou como provocação foi mais ou menos isto: a IA ampliou o que somos capazes de fazer, e agora o passo seguinte é elevar a exigência sobre o que escolhemos fazer com essa capacidade.

É uma inversão importante. Durante anos a discussão foi sobre o que a IA consegue ou não consegue fazer no RH. Depois de 55 respostas, a discussão que faz sentido é outra: o que a sua empresa decidiu que a IA deve fazer, com quais critérios, e quem assina o que fica com pessoas. A sala respondeu isso em uma linha: triagem e operacional para a IA, com critério definido pelo RH; entrevista e decisão com gente.

Falo isso com algum interesse, claro. A Fluid foi desenhada exatamente nesse recorte: a IA cuida da triagem e do operacional, com critérios definidos pelo RH, e a entrevista e a decisão continuam com pessoas. Se quiser ver como isso funciona na prática, agenda um bate-papo clicando no botão abaixo.

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